Existem tempos de consciencialização que demoram a ser alcançados. Ou que pelo menos, precisam que algo de cortante, catastrófico e fracturante aconteça, para que se unam as vozes. O Mundo acordou sobressaltado na passada quarta-feira. E ainda não se recompôs de uma crise humana instalada e marcada pela violência, agressividade, desumanidade e loucura fundamentalista. A Europa não conseguia prever, por muitos sinais que existissem. Paris não conseguiu antecipar tamanha crueldade, a sangue frio. E tudo em virtude de poder fundamentalista, submissão e cegueira religiosa, Foram gritos de raiva e de ofensa à liberdade de expressão, à liberdade da tradição da sátira, do humor. Um ataque à liberdade humana. O assalto ao jornal satírico Charlie Hebdo demonstrou uma evidente atitude terrorista próxima e assustadora. Como se as leis que nos regem, não tivessem força perante este pensamento, esta forma de encarar o Mundo e esta radicalidade. Quando o outro perde a noção do que é a liberdade, daquele que nos encara, caminhamos para o lugar dos selvajaria e da sobrevivência. Regredimos ao primitivo. Declaramos guerra ao anti-semitismo, ao fundamentalismo, a esta crueza de acções, que assassinam inocentes, em prol do quê?! Nada poderá justificar a morte de inocentes. A morte da palavra e das ideias. E as respostas fizeram-se sentir por todo o Mundo. Um ataque a este semanário, que reagiu da maneira mais forte e obstinada. Com uma capa que une o Amor ao Ódio. Que reclama o poder desse sentimento tão humano, que prevalece perante as maiores atrocidades. “O Amor é mais Forte do que o Ódio”, apresenta uma das capas deste jornal, após um atentado. Ficamos todos remexidos, nos nossos receios de espectadores e actores deste Universo, para o caminho que nos levam estes momentos. E como é tão fácil sermos todos reféns de uma história idêntica, de uma realidade destas, de uma transformação de vida em apenas segundos. E é aí que algo também deve sair da nossa interioridade. Não existe nada mais intenso e forte, do que a coragem e a liberdade. O Homem sem Liberdade não tem estrutura. E é nessa Liberdade que reside o maior dos poderes. Como vemos, na unidade sobre este tema, nos milhares de cidadãos que se uniram para se fazerem ouvir. Que não aceitam esta violência, nem se sucumbem a este imperialismo idealista. E tal como o jornal conservador espanhol “La Rázon” colocou em homenagem na sua capa esta semana, “SOMOS TODOS CHARLIE HEBDO”. E SOMOS MESMO.

Ana Rita Clara 

TEMPOS DE RAIVA