THE MAKERS | LINDA PEREIRA

O ana272.com pretende também ser um espaço de partilha, de inspiração e de motivação para a passagem da ideia ao projecto, do sonho à realidade. É, por isso, que aqui damos voz a ‘THE MAKERS’. Pessoas cuja vivência e experiência profissional nos inspiram e incentivam a abrir horizontes em direcção à mudança, ao dia seguinte em partimos para uma nova etapa da nossa vida.

Hoje ouvimos Linda Pereira. Muito mais do que Directora Executiva da CPL Meetings&Events, empresa especializada na gestão profissional de conferências e encontros nacionais e internacionais, numa vasta área de sectores, e The WOW (Women’s Ordination Worldwide) Conference 2015, Linda é um exemplo de verdadeiro empreendedorismo feminino que tanto nos faz reflectir. Ouvimos o que tem para nos contar?

1.    Como vê o empreendedorismo feminino no nosso País?

As mulheres Portuguesas são brilhantes e muito corajosas no geral, mas também demasiado tolerantes, permitindo situações que já não são passíveis de serem toleradas. Tenho-me apercebido que conseguem milagres, quando se dedicam ao empreendedorismo São criativas, ambiciosas e destemidas. Têm no seu ADN a capacidade de dar a volta a todas as situações adversas. Criam negócios de suas paixões e dos seus talentos. Não desistem e estão presentes, liderando sempre com a mão no leme. É-lhes reconhecido uma capacidade inesgotável de energia… capacidade essa que muitas vezes faz com que as empresas as mantenham nos lugares de gestão e não as levem à liderança porque são confiáveis para levar a obra a bom porto. As mulheres portuguesas deveriam ser um case study.

2.    É essa energia fulgurante que alimenta o seu espírito, quando a resistência cultural acontece?

O machismo de países latinos é ainda mais perigoso porque é escondido, ciumento e invejoso. Considero o machismo charmoso e simpático em Portugal, o maior impedimento ao avanço e desenvolvimento das mulheres nos negócios e na liderança.

Não obstante os grandes avanços, o que é certo e incontestável é que os homens em Portugal estão sempre a controlar. É por isso então necessário compreender o sistema, fazer parte dele, mas não nos subordinarmos a ele e, acima de tudo, nunca perdermos a nossa energia, a capacidade de acreditar e a crença inabalável nas nossas capacidades.

A minha energia vem de acreditar que sei fazer, que consigo fazer, que tenho o direito de fazer e que, como tal, vou fazer. Nunca me preocupo (em demasia) com a opinião que outros têm de mim, mas sim com a imagem que transmito. Sempre me rodeei de pessoas que estão na mesma missão do que eu e isso alimenta a minha energia que se renova diariamente.

Há duas frases que me acompanham quando os estereótipos surgem no meu caminho: a da Carrie Bradshaw de ‘Sex and the City’ quando gozam com o facto de gostar de sapatos (um estereótipo feminino do meu carácter feminino que muito prazer me dá…)

“O caminho de uma mulher já é tão complicado que se ela poder caminhar com sapatos bonitos tudo parece mais fácil”.

A outra frase é a seguinte:

“Be the kind of woman who, when your feet hit the floor in the morning, the devil says, ‘Oh No, She’s Up!”

3. Que caminhos e desafios se deparam as mulheres do nosso tempo?

As mulheres do nosso tempo criaram para si um padrão de excelência que é, muitas vezes, difícil de alcançar. O grau de tolerância de erro para os homens é muito maior do que para as mulheres. Mas elas contribuíram para isso. Elas estudam, trabalham a tempo inteiro, são gestoras do lar, são mães envolvidas e presentes, responsabilizam-se por pais e familiares de idade e, mesmo assim, arranjam tempo para ser bonitas, vistosas e, acima de tudo, generosas de espírito.

Pois, mas tudo o que se leva ao extremo tem um preço. Muitas vezes esta dedicação à perseguição da perfeição em todas as áreas resulta em cansaço extremo, e não conheço uma amiga que não se queixe desse problema. Ou, por extensão, sofre o casamento ou sofrem elas mesmas mais tarde. A nossa sociedade ainda não apoia a mulher, nem na sua ambição profissional (bancos, seguradoras etc.) nem no seu papel social, criando as condições para que ela tenha opções.

A sociedade é injusta com elas e, muitas vezes, em vez de empurrar a mudança de mindset, acaba por empurrar a uma mudança da mulher para se adaptar. Ainda temos uma sociedade que chama “bossy” às mulheres afirmativas, por exemplo… Eu costumo responder que não, não sou bossy, tenho é capacidades de liderança!

4. O que retirou desse encontro maravilhoso, no “The WOW Conference” que ocorreu recentemente e pela primeira vez no nosso País?

Que quando um grupo de mulheres se junta, e o seu respectivo conhecimento, cultura, experiências e percursos, grandes coisas acontecem. As mulheres são, por natureza, inclusivas, focadas na equipa e não tanto no individual, no consenso e não na guerra… Conseguem mudar o mundo um passo de cada vez… Isso ficou claro neste evento.

A preocupação aqui foi em relação ao legado que podemos deixar para o futuro, que tipo de sociedade, que tipo de economia, que tipo de mundo para os nossos filhos? Porque as mulheres são infinitamente mais interessantes, inteligentes, ponderadas, inclusivas, complexas, sábias e práticas que os homens e o mundo sempre esteve e estará dependente delas… E aí está o verdadeiro poder… Só basta que os homens o percebam e assumam…

5. O que deve ter o ADN de uma “successful women” ?

O sucesso é uma palavra que me fascina porque o sucesso tem muitas caras. Para as mulheres então ainda mais. O sucesso para as mulheres não está ligado necessariamente ao lugar que ocupam nos negócios ou na empresa, mas a algo mais holístico. Conheço muitas líderes que não se consideram um sucesso porque a sua vida pessoal não correu bem.

Mas se aqui limitarmos os parâmetros e nos focarmos no sucesso profissional, então, honestamente, considero que o sucesso consiste em estarmos onde queremos estar, termos chegado ao lugar onde imaginávamos chegar e continuarmos a querer ir mais além.

A vida ensinou-me que não me devo levar demasiado a sério, mas devo fazer tudo de uma forma séria. E o melhor que posso fazer é partilhar o sucesso com outros. O sucesso é conseguir tornar as minhas ideias em realidade enquanto ganho o respeito daqueles que são mais importantes para mim. Para conseguir isso tenho quatro mantras de vida: persistência, rapidez, imaginação e honestidade.

São os hábitos que nos formam. Eu sou proactiva e gosto de situações win-win. Creio que isto é comum à maior parte das mulheres que se consideram “de sucesso”. Sou positiva e gosto de pensar na solução e não no problema. Aliás, não dispenso muita energia a focar-me no problema. Sou decisiva e tenho uma visão de disciplina focada sempre no horizonte. Os valores são muito importantes para mim e recuso-me a trabalhar com pessoas e empresas que não valorizem o respeito mútuo ou os valores.

A gentileza, a amabilidade, são virtudes que considero mais importantes do que a confiança e a personalidade. É a gentileza que vai levar à sensibilidade e à maior capacidade de compreensão e entendimento com o outro. Faz com que se respeite e considere colaboradores, clientes e fornecedores e se criem relações duradouras, baseadas no respeito e na honestidade.

Em último grau para a maior parte das mulheres, o sucesso é que os filhos e os pais tenham orgulho em nós. O mantra do sucesso profissional é frágil. Seja onde for que chegou, pode sempre ir mais longe.

6. Como definiria a melhor das lideranças?

As mulheres são excelentes líderes porque comunicam eficazmente, além de terem infinitamente mais paciência e resiliência do que os homens. Os dois sexos têm virtudes complementares. Cada um tem capacidades e talentos únicos que servem a liderança. Há diferenças que se complementam.

Numa organização liderada por uma mulher, a equipa, e especialmente a equipa das mulheres mais jovens, sente-se mais valorizada, mais reconhecida e mais confiante. Está documentado que as equipas geralmente aumentam a produtividade. Quando se lidera tem que se ter um sentido estratégico de percurso, mas também de criação de equipas que partilham a missão. O que as mulheres conseguem com muito mais facilidade. Criam culturas de empowerment e tudo o resto encaixa de imediato.

A minha fórmula de sucesso é muito simples: escolher as melhores pessoas (que não são necessariamente as mais qualificadas no papel), formar, motivar, explicar a missão e o objectivo, dar espaço para criarem e estar sempre disponíveis para os ouvir… Liderar de porta aberta e sem barreiras à comunicação. Focar nos drivers do negócio, ensinar a equipa como gerir e decidir sempre com justiça e objectividade. Criar uma cultura de fair play e encarar sempre os desafios de uma forma partilhada. Ou seja, encarar desafios e problemas, não com mentalidade de vítima e coitadinha, mas com um mindset de encontro da solução em equipa.

7. Estamos perante um novo feminismo?

Sim, sem dúvida. Estamos a testemunhar um feminist Spring! Os direitos das mulheres estão outra vez na frente de batalha… E não era sem tempo!

Estamos a testemunhar uma nova onda de feminismo que está a incendiar o mundo profissional. Há alguma coisa no ar, uma nova energia e um novo interesse nestes assuntos. No Reino Unido, os grupos de mulheres profissionais triplicaram desde 2010. Eu própria tenho sido muito solicitada para palestrar e escrever sobre o assunto desde 2009.

As mulheres  estão em maioria nas universidades, nos lugares médios de gestão, e estão a tomar controlo dos seus corpos, das suas vozes, das oportunidades, dos valores e da liberdade que em muito resultam das novas tecnologias e das redes sociais.

Hoje há mais interesse feminino nos media, na política, na indústria etc…. E não o estão a fazer imitando os homens, mas sim “in their way”!  Nem se tem conta do número de micro-movimentos de liderança que têm surgido.

As mulheres ligaram o turbo. Exemplos como as artistas russas, Pussy Riot, hoje nomes que todos conhecemos, e a Malala, acordaram o mundo. Com a conclusão de que os media vão cobrir o assunto, esta metodologia já foi adoptada pelo mundo, do México à Tunísia e à Alemanha.  Estamos a viver momentos únicos.

O activismo hoje é criativo, inclusivo e brinca de uma maneira séria para se tornar falado.  Para as mulheres de hoje, isto parece o feminismo sobre o efeito de esteroides. A atitude é razoável e revolucionária. A internet permitiu que o feminismo de hoje não seja de biblioteca, de gabinete ou de parlamento, mas sim de trompeta!

Estas mulheres vão levar-nos até ao próximo nível da viagem: um mundo que valoriza as mulheres, onde as mulheres que nascem o fazem sabendo que vão ter as mesmas oportunidades e direitos de escolha, que aceitam os seus corpos, onde a violação é crime imperdoável e onde o ser humano é valorizado acima do dinheiro.

8. Existe uma urgência na criação de redes e conexões entre as mulheres que procuram outro nível de reconhecimento?

Seria quase impossível eu estar onde estou hoje sem redes e conexões no feminino. Sou e sempre fui associativa por natureza e foi através dessas redes que criei os conhecimentos, os aliados e os campeões que me apoiaram ao longo do tempo e me permitiram evoluir.

As últimas duas décadas da minha vida provaram que fazer parte de, e contribuir para as redes, me alicerçaram no meu percurso, e daí estar agora empenhada em não só alertar as novas gerações para este assunto, como também em contribuir para deixar esse legado.

O movimento “women helping women” que se está a alastrar pelo mundo é uma prova positiva sobre o efeito das conexões e das redes… Em todos os aspectos e assuntos. Os networks são instrumentais no desenvolvimento de capacidades de liderança, no alerta para oportunidades e até para a criação das mesmas e na obtenção de conselhos e orientação de outras mulheres ou homens que já fizeram esse percurso ou que conhecem o caminho.

As redes também proporcionam o acesso  ao conhecimento profissional de um modo mais imediato, económico e prático. Dão-nos coragem para correr riscos, compreender a mudança, e ultrapassar barreiras, quer psicológicas, quer sociais ou políticas.  O processo de mentoring age como um catalizador.

Está mais que provado que as mulheres precisam expandir as suas conexões, uma coisa que os homens fazem com naturalidade. As redes também nos ensinam a questionar. Temos que aprender a questionar aqueles que tomam decisões por nós, temos que fazer perguntas do género: ‘Este político está comprometido com o avanço das mulheres? Este partido político ou esta empresa tem demonstrado um percurso de apoio às mulheres? Quantas mulheres estão na liderança nesta empresa?’ Tudo isto se faz com mais impacto quando se tem apoio.

Obviamente ainda são poucas as mulheres em Portugal que realmente percebem isto. É uma questão cultural. Há sempre muito onde investir o tempo e esta área vai ficando para trás. Errado. O futuro vai demonstrar isso.

9. E daqui a 10 anos, onde estarão estas mulheres empreendedoras?

Estarão, certamente, a servir de modelos e incentivos para todas aquelas que ambicionam seguir os seus passos e o meu sonho é que sejam mais de 50% da população mundial!!!!