COMEÇO E FIM. AMOR SEM TEMPO

Não gosto quando falam de morte. Nunca gostei dela. Nem da maneira como ocupa muito espaço e consegue ser sempre tão imprevisível e até vergar os mais fortes de nós. E parece ser sempre assim, nós contra ela. Nós sem controlo sobre ela. E um intenso sofrimento quando o pensamento se coloca nela. Ou porque vivemos os dias com medo dela, ou porque ela nos aparece em casa e convida outro alguém para passear. E leva-a consigo. Não dá satisfação. Não pede licença, nem autorização. Às vezes sentimos que se aproxima e até podemos aceitar a sua intromissão de uma maneira menos dolorosa, mas quando acontece sem estarmos à espera, pode ser mesmo irremediável. Pode mesmo ferir-nos para a vida. Contaminar-nos. Definhar-nos por não compreendermos a sua pressa. Sim, que a morte por vezes tem pressa de velocista. Não gosto quando falas de morte. E sabes que é para ti que me dirijo. Porque tu viverás sempre. E porque esta ideia que te assola não faz mesmo sentido. Saramago escreveu uma história única e que te deve inspirar. “As intermitências da Morte”. Um livro que retrata a morte como personagem real e a procura humanizar. E coloca toda a sociedade com vários dilemas e o lugar que esta ocupa também nas nossas vidas. E esta tentativa de a humanizar resulta em páginas absolutamente geniais. E que naturalmente nos colocam também em causa. E por isso não quero que fales em morte. Porque não combinas com essa palavra. Não te veste bem, não te assenta bem, não te favorece. Procura sempre o melhor vestido, o melhor estilo, o melhor sorriso para encarares o dia de amanhã. Porque não há mais nada a pensar. Pelo menos que te provoque dor e ansiedade. E porque pensar no fim, que até pode ter a sua continuação (crenças à parte), apenas te limita os momentos do agora. E porque sem ti, a vida não fará o sentido que tem agora.  E por isso te digo, dá um tempo à morte. Dá-lhe espaço para ela viver noutros locais, noutros corpos, noutros tempos. Porque o teu tempo só fica bem ao meu lado.