THE MAKERS | MARIA ELISA DOMINGUES

Desta vez no THE MAKERS apresento-vos uma das mais inspiradoras senhoras da comunicação do nosso país. E de tantas outras artes e ofícios.

Maria Elisa Domingues. A sua presença é carismática, o seu tom de voz exprime segurança e o seu olhar denuncia que se trata de uma mulher de grandes afectos. aqui, para o ANA272, sem camadas, nem dúvidas. Maria Elisa Domingues.

Uma referência para mim, uma inspiração. Pela determinação, pelo poder que lhe é natural, pelas qualidades incontornáveis de exímia comunicadora. E sobretudo de mulher lutadora, de manifesto pela igualdade do género, pelas oportunidades. E pelo reconhecimento assente no verdadeiro talento. Tal como eu também sinto e acredito.

Obrigada Maria Elisa. Consigo perto fico mais perto do que realmente importa

1. Maria Elisa Domingues, uma mulher distinta, forte e que nunca diz que não a um desafio. Concorda com a forma como a vejo?

Fui muito nova colocada perante situações profissionais que nunca antes tinham sido colocadas a uma mulher em Portugal. Mas nunca tive dúvidas de que, enquanto mulher, poderia sair-me delas com a mesma capacidade que um homem. No entanto, não aceitei todos os desafios, só aqueles que, num momento, num contexto específico, me pareceram valer a pena. Claro que algumas vezes me enganei: não saí mais enriquecida de todos eles. Infelizmente, às vezes isso não se sabe sem passar por experiências menos gratificantes.

2. O que é que a continua a motivar?

Motiva-me a vontade de fazer coisas novas, de explorar as minhas capacidades. A curiosidade, característica essencial a um jornalista. O desejo de ser cada vez mais capaz. A esperança de ser cada vez mais humilde.

3. 40 anos a comunicar. A caixinha mágica, como tantos a apelidam, continua a ter a mesma força? Ou o mesmo brilho?

Costumo dizer que a televisão é o meu habitat natural. E é isso que continuo a sentir. Um estúdio de tv é, quase sempre, para mim, um espaço aconchegante. Ou a filmagem de uma entrevista a alguém que me interpela. Dito isto, sempre desenvolvi, em paralelo, uma carreira na imprensa escrita, onde tenho muitas centenas de trabalhos publicados: fui, durante longos anos, colaboradora semanal do Diário de Notícias, onde tinha a minha coluna. Mas escrevi para um grande número de outros jornais e revistas, continuo a fazê-lo. E depois há os livros, um trabalho de maior fôlego, mas que me proporciona também grande satisfação pois tenho procurado temas que me parecem úteis a um número significativo de pessoas: a fibromialgia, o cancro, o envelhecimento com qualidade… Encontrei, também através dos livros, gente fantástica, cujo contacto muito me enriqueceu.

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4. Ser a primeira mulher a ter o cargo que ocupou na RTP e a primeira mulher a fazer entrevistas políticas. O que foi preciso para alcançar esse espaço de influência?

Ser a primeira mulher a fazer entrevistas políticas na tv foi fruto de várias circunstâncias:

1) Em primeiro lugar, da revolução, que nos devolveu a liberdade e, com ela, a possibilidade de as mulheres terem as mesmas oportunidades que os homens.

2) Além disso, eu vinha da esquerda, não estava conotada com o anterior regime; isso foi essencial para me confiarem essa responsabilidade.

3) E depois eu saíra do país para poder estudar jornalismo (não havia até então nenhuma escola de comunicação social em Portugal), para me preparar para a profissão que queria exercer. Separei-me de um filho bebé para ir estudar…talvez essa tão difícil decisão tenha demonstrado o meu empenhamento.

4) Além disso, houve na RTP um presidente, um homem da casa, que acompanhara a minha evolução, chamado João Soares Louro, que acreditou naquela jovem de 20 e tal e me entregou uma hora por semana, para eu entrevistar os protagonistas políticos que entendesse. Com total liberdade para escolher! Isso foi talvez o mais espantoso de tudo. Deu-me um enorme sentido de responsabilidade. Tive sorte, não me subiu à cabeça. Eu nunca deixaria, tenho demasiado sentido critico.

5) Foi graças à confiança de outro presidente da RTP – Daniel Proença de Carvalho, de fora da estrutura da empresa, nomeado por Francisco Sá Carneiro – que me tornei Directora de Programas, com apenas 30 anos, quando a RTP era ainda um monopólio. Não nos conhecíamos. Aí, sim, tive medo de não ser capaz de desempenhar bem o cargo, era muito nova, até então a minha experiência dentro da televisão era apenas a de jornalista. De repente, ia dirigir 600 pessoas, todos os realizadores e produtores da empresa, a maior parte muito mais velhos do que eu… Tive 24h para decidir. E dei comigo a pensar: “Se não agarrar esta oportunidade, ela não se repetira. Nunca saberei se sou capaz ou não”. Essa foi uma decisão difícil de tomar. Mas não me devo ter saído mal: o presidente seguinte manteve-me no lugar, para o qual voltaria a ser convidada, sempre na RTP, 15 anos depois. E, entretanto, a administração da SIC convidou-me para exercer as mesmas funções quando lhe foi atribuída uma licença de televisão.

5. O lugar do poder feminino e a beleza da mulher também sofreu muitas transformações ao longo do tempo? Foi esse poder feminino que quis reforçar no seu livro?

Este livro não tem o empowerment feminino como motivação imediata, mas ele está sempre presente na minha vida. Pertenço a uma geração que viveu o Maio de 68 no final da adolescência/início da juventude, que assistiu à adopção da pílula como principal anticonceptivo, à aprovação da interrupção voluntária da gravidez em inúmeros países da Europa, antes de o ser no nosso: por exemplo, a França que votava à direita, do presidente Giscard d’Estaing, aprovou em 1975 essa legislação, graças à corajosa batalha da sua ministra da Saúde, Simone Veil, que tive o prazer de conhecer e entrevistar.
Estes acontecimentos marcaram a minha afirmação enquanto mulher, sempre convicta de que era capaz de assumir as mesmas responsabilidades que os homens.

O meu livro “Confissões de uma mulher madura – como enfrentar a idade sem medo”, representa uma fase deste meu percurso que me pareceu útil partilhar com os leitores (embora o livro se dirija principalmente às mulheres, os homens que já o leram dizem tê-lo considerado muito útil, até porque muitos temas não têm conotação de género). Este terceiro acto da nossa vida, como Jane Fonda lhe chamou, pode e deve ser vivido com optimismo e criatividade, que não dependem da idade. Mas isso implica um trabalho de auto-conhecimento e transformação, que às vezes, por comodismo, as pessoas se recusam a fazer. Eu acredito que adoptando novos desafios se envelhece com mais qualidade, com mais energia e entusiasmo.

6. E as mulheres de hoje já não têm medo de manifestar o seu espírito feminista? Seremos as “novas” Marias Elisas que acreditam na democracia?

Há uma nova onda de feminismo liderada por estrelas da pop, como Beyoncé ou Taylor Swift, que está a ter grande impacto nos jovens. Uma atitude é desdenhar dessa onda, por se considerar apenas mais uma estratégia de marketing; a outra é aproveitar o que esse movimento está a provocar em termos de afirmar a ideia de que as mulheres têm direito à paridade total, de que podem exercer todos os cargos de responsabilidade que os homens, “por inerência”, desempenham. Enquanto continuarmos a contar quantas mulheres existem num governo recém nomeado algo está errado: a presença das mulheres tem de ser tão banal como a dos homens.

Penso que, para as jovens, a democracia, enquanto sistema alternativo de governos eleitos em liberdade, é um dado adquirido: e é verdade que, em Portugal, não existem movimentos extremistas com expressão, como acontece noutros países de forma inquietante, como por exemplo em França. Talvez seja a lição de 50 anos de ditadura.

Dito isto, temos de cuidar da democracia, que a história demonstra não ser um dado adquirido, e aprofundá-la, nomeadamente no que diz respeito à representação feminina a todos os níveis, que em Portugal, em muitos campos, e de forma gritante no político e no económico-financeiro, deixam muito a desejar.

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7. A exposição mediática cria lugares de luz e de sombras? Como se cria a defesa interior?

A exposição mediática tem uma força própria particular, da qual, quando nos tornamos conhecidos e somos ainda jovens, como foi o meu caso, não nos damos conta. E sim, cria esses “lugares de luz e de sombras” e às vezes as sombras assustam…

A questão está em que se expõe em função da sua profissão – na televisão, no cinema, no teatro, mas também, por exemplo, na escrita – tem depois necessidade de promover o seu trabalho, que não é só seu, mas das estações, dos produtores , dos editores. Existe uma responsabilidade colectiva naquilo que criamos e queremos divulgar junto do público que nos obriga a uma certa exposição, relacionada como o trabalho. Mas, a partir do momento em que adquirimos certa notoriedade, alguma comunicação social sente-se no direito de expor também o lado privado da nossa vida, o que pode ser muito doloroso, até por envolver muitas vezes outras pessoas que nada têm a ver com esse trabalho mais mediático. Por outro lado, quando as pessoas se tornam famosas muito cedo, não podem ter a noção do impacto que certas afirmações, certas atitudes, voluntariamente assumidas, representarão em termos públicos. Calculo que a chamada “geração Morangos com Açúcar” tenha sofrido muito, eram muito jovens e certamente, muitos deles, não se reviam, algum tempo depois , na imagem que haviam transmitido.

Para mim, foi muito difícil criar essa tal “defesa interior”. Ainda hoje sofro quando leio alguma coisa sobre mim que não corresponde à verdade. Aprende-se, talvez, a relativizar a importância dessas coisas.

O aparecimento das redes sociais veio modificar bastante esta realidade: se, por um lado, através delas, a própria pessoa pode transmitir a “sua” imagem, pode construí-la, por outro tudo aquilo que se escreve ou diz é imediatamente multiplicado por milhares ou milhões de “likes” ou “dislikes”, tornando a mensagem, boa ou má, absolutamente global e incontrolável. Ou seja, a exposição mediática tornou-se incomparavelmente maior e mais complexa.

8. E, hoje em dia, o Doutoramento. Em algo que nunca imaginou? Voltamos aos palcos e às personagens?

A decisão de fazer um Doutoramento, decorreu, em boa parte, da circunstância de ter saído da RTP. A maior disponibilidade e o facto de gostar muito de estudar fizeram o resto. Encontrei na Universidade de Coimbra um ambiente acolhedor e um constante incentivo dos meus objectivos. O tema da tese – as questões de género na produção dramática – decorre daquilo que foram sempre os meus interesses e experiência profissional. Analisá-los de forma sistemática, através da disciplina académica, parece-me uma forma lógica de complementar o meu percurso profissional. E pessoal.

9. E na primeira plateia, o Amor? Sem ele nada é possível? E tudo se justifica?

Ah! o amor… Através da nossa vida conhecemos diferentes formas de amor. Há o amor pelos filhos, pelos pais , pelos irmãos, pelos netos. O amor pelos animais ou pela natureza.Tantas formas de amor. E depois há o amor pelo ser amado, que também pode vir de muitas formas: o amor/paixão, o amor/companheirismo. Tenho a sorte de ter conhecido muitas e diversas formas de amor. Vivê-las decerto ajuda a sentirmo-nos felizes. Mas há períodos duros, de conflito ou solidão, que por vezes são produtivos, em termos de criatividade, por exemplo. A vida é esta mescla surpreendente de emoções e cada um de nós vive-a de forma diferente.

10. Mensagem para todas as mulheres que continuam a acreditar na força da vontade e do querer como a Maria Elisa.

Não tenho receitas infalíveis: ao longo da vida, enfrentei situações, quer pessoais, quer profissionais, muito difíceis de ultrapassar. Foram os valores da dignidade e do respeito por mim própria que se encarregaram de me apontar a solução, mesmo quando ela foi contrária ao que seria a minha vontade ou interesses imediatos.

A mensagem que quero deixar é que, embora sem deixar de lutar por uma situação profissional à altura das vossas capacidades, não desistam da felicidade e do prazer. De cultivar a família, os amigos. De conhecerem o mundo, seja através de viagens ou da literatura, outra fantástica forma de viajar. De ser sensíveis ao sofrimento dos outros e de fazer alguma coisa para o minorar. De abraçar uma causa e lutar por ela. De sonhar o impossível. E de aproveitar plenamente o que cada dia traz de novo.