THE MAKERS – ANA BACALHAU

THE MAKERS – ANA BACALHAU

Para o The Makers de hoje apresento-vos uma mulher com várias facetas. Mas que acima de tudo não descura o seu sentido de cidadania. A música sempre habitou o seu coração ainda que tenha percorrido o caminho das letras. Hoje usa as duas para se fazer ouvir e tentar mostrar a sua perspectiva do mundo. Ana Bacalhau é também Deolinda mas sem nunca perder a sua essência individual.


1.Como começou esta aventura no mundo da música?

Começou ainda na Faculdade de Letras, quando conheci o Gonçalo Tocha e o Dídio Pestana, com quem formei a minha primeira banda, os Lupanar. Antes, já acalentava o sonho de cantar como profissão e andava sempre de guitarra em punho, a tocar canções de outros ou a compor canções, nos intervalos das aulas do secundário. Antes de Deolinda, ainda tive um trio de Jazz com quem toquei durante um ano num hotel, em Lisboa. Tudo aprendizagens preciosas para o que viria a fazer depois com a Deolinda.

 

2. A “Deolinda” tem um carácter interventivo. Como nasceu esta vontade de querer influenciar a sociedade?

Não sei se será tanto uma vontade de influenciar a opinião de alguém, mas sobretudo a vontade de pensar a sociedade e de levar a que quem nos ouça também possa reflectir acerca do que nos rodeia, concordando ou não connosco. Temos essa postura de observação crítica na nossa vida do dia-a-dia que passa, muito naturalmente, para o que depois fazemos musicalmente.

 

3. É importante que os músicos passem mensagens político-sociais às pessoas?

Considero essencial que um músico se exprima de forma clara, que procure apresentar e representar o seu universo pessoal de forma musical e artística. Se a pessoa for politizada, isso deverá reflectir-se no seu trabalho, se não for, não se reflectirá. Obrigatório é nunca atraiçoarmos a nossa essência artística, que será uma representação da nossa essência pessoal.

 

4. Quando ouve o público português a cantar, sente que existe uma necessidade de acreditar que tudo vai melhorar?

A esperança no futuro é uma necessidade humana. Nada se faz se não se acreditar que se está a fazê-lo para que o amanhã seja melhor. A arte é essencial e nada acessória nesta questão. É através da arte e das ciências humanas que pensamos a subjectividade e percebemos a importância que diferentes pontos de vista têm para o avanço da humanidade. Se quando ouço o público a cantar penso que acreditam que o amanhã será melhor? Não tenho a certeza. Mas sei que se sentem melhor porque a música tem esse poder de nos fazer sentir melhor, aos que a tocam e aos que a ouvem.

 

5. Uma década passou desde que começaram. E, lançaram recentemente o disco “Outras Histórias”. Que outras histórias ainda querem cantar?

Tantas. As histórias que vamos observando no dia-a-dia. Em 2006, Portugal e o mundo eram diferentes do mundo de 2016. Muitas histórias e personagens se revelaram e muitas haverá ainda para revelar, porque a nossa proposta é cantar o momento presente. Não sei como serão as histórias que a Deolinda irá contar em 2026, mas sei que haverá muitas, certamente.

 

6. É uma mulher interventiva na sociedade e que se associa a vários projectos. E, já foi uma das Changers convidada, no meu projecto “Change It”! É difícil para um músico tentar criar mudanças na sociedade?

Considero que o exercício da cidadania é exigente e nem sempre fácil. No entanto, é imprescindível para que consigamos melhorar e evoluir enquanto sociedade. Antes de ser música, sou cidadã e faço questão de aliar esse exercício da cidadania ao exercício da minha profissão. O facto de termos um maior acesso a meios de comunicação facilita, mas, ao mesmo tempo, é por vezes difícil ultrapassar a ideia feita na cabeça de algumas pessoas de que os artistas servem apenas para entreter e não para serem agentes de mudança.

 

7. A personagem Deolinda foi muito bem recebida pelas pessoas. Há falta de mulheres assim?

Não, pelo contrário, acho que há muitas mulheres assim, talvez por isso se explique o sucesso da personagem. O que faltará será uma representação massiva de mulheres fortes, independentes e com uma voz social, cultural e política activa nos meios de comunicação portugueses e mundiais, até.

 

8. Assume-se como feminista. É importante para Portugal afrontar essa palavra?

É sobretudo muito importante que se retirem as conotações negativas da palavra, que lhe foram incutidas por uma cultura com traços machistas ainda muito arreigados e por vezes até com laivos de misoginia. É de enorme importância que a igualdade de género seja uma prioridade para homens e mulheres. Nunca a nossa sociedade poderá ser bem sucedida se não se acautelar que qualquer pessoa, independentemente do seu género, cor ou religião, parte para a vida em grau de igualdade. As notícias horripilantes da forma como as religiões subjugam e perpetuam os maus-tratos a mulheres, ou como a cultura da violação se encontra tão presente que a culpabilização da vítima é ainda um fenómeno corriqueiro quer nas redes sociais, quer nos canais oficiais de Justiça, ou até a forma como o Estado acha que pode dispor do corpo de uma mulher, legislando políticas de saúde sexual reprodutiva repressivas, são sinais de que o mundo ainda não percebeu que a mulher tem direito à sua dignidade e é dona de si e do seu corpo.

 

9. A Ana a solo diferencia-se em quê da Ana, nos “Deolinda”?

Na Deolinda, o meu trabalho é interpretar histórias, personagens, situações várias, com as quais me identifico, claro, mas que não são as minhas histórias pessoais. Quando trabalho fora da Deolinda, procuro então aproveitar para me cantar a mim, ao meu universo pessoal, íntimo. Diria que o meu lado solar se expande na Deolinda e o meu lado sombrio toma conta dos momentos em que canto a solo.

 

10. Também escreve crónicas na Notícias Magazine. Tem, também, uma veia “jornalística”?

Desde pequena que gosto muito de ler e escrever. Antes de descobrir a música queria ser escritora e sempre gostei muito de escrever em formato crónica. Não diria que a minha escrita é “jornalística”, no sentido de não ser uma escrita objectiva, factual, do momento presente. É mais introspectiva, subjectiva e apenas pretende retratar a minha visão do mundo, não retratar o mundo.

 

11. O que é que a faz sorrir?

O meu marido, o meu gato, um bom livro, uma boa canção, uma criança a ser criança, a bondade, a lucidez, a honestidade, um sorriso. Ah, e o Face Swap, a melhor aplicação de sempre.

 

12. Porque é que acha que é uma Maker?

Porque mesmo tendo de superar as maiores dificuldades, sempre acreditei que conseguiria alcançar os meus objectivos e nunca desisti. Estou sempre a pensar no que ainda me falta fazer e acho que é como a minha avó dizia: “Descansar? Quando morrer vou deitada.”

 

11. Que mensagem quer passar a quem nos lê?

Tentem perceber quem é a pessoa que vos habita e dignifiquem-na. Nunca a comprometam, por nada neste mundo. A única riqueza que temos no mundo é quem somos e nunca devemos abdicar de o ser por nada, nem por ninguém. Não se atraiçoem.