THE MAKERS – Francisca Van Zeller – D’Uva Portugal Wine girls

THE MAKERS – Francisca Van Zeller – D’Uva Portugal Wine girls

 

1 – Francisca, licenciou-se em História mas a sua pós-graduação já foi em Vinicultura e Enologia. Como é que a vitivinicultura a conquistou?

Licenciei-me em História, tirei um Mestrado em Jornalismo e a minha Pós-Graduação é em Viticultura e Enologia. A Vitivinicultura sempre fez parte da minha vida, mas eu demorei a perceber isso. Não digo que tenha vinho no sangue… Mas o vinho e o Douro são uma parte tão grande da minha vida que não a conheço sem eles. A minha família trabalha com vinhos no Douro desde 1620. As vinhas fazem parte do meu imaginário, era nos campos onde brincava, em criança. Hoje, são o que criam a coisa que mais me dá prazer: o vinho. E tudo o que ele traz – família, natureza, pessoas, culturas e histórias.

2 – Este sector é ainda considerado, principalmente pelos menos envolvidos, um mundo masculino. Esta ideia está a mudar?

Esta ideia está a mudar. Portugal é um dos países produtores onde isso é mais notório. Não sou eu que o digo mas sim quem nos visita, e que tende a reparar que existem muitas mulheres no negócio. Não é uma presença nova. Há vários exemplos no sector, de mulheres que viraram figuras icónicas – A Madame Clicquot (Champagne Veuve Clicquot), Dona Antónia (Douro), Lily Bollinger (Champagne Bollinger), mais recentemente a Filipa Pato, Filipa Tomaz da Costa, Sandra Tavares da Silva. Por exemplo, na Quinta Vale D. Maria o meu pai sempre escolheu trabalhar com mulheres enólogas. A verdade é que as mulheres se destacam cada vez mais como enólogas, mas não só! Há cada vez mais mulheres sommeliersMasters of Wine  (o exame mais difícil no conhecimento de vinhos), compradoras, que gerem empresas de vinho… As mulheres são melhores provadoras de vinho, segundo alguns estudos científicos, o que pode ser outro factor que nos ajuda a destacar no sector!

3- De onde nasce a ideia das D’Uva – Portugal Wine Girls?

Surge no seguimento de uma reportagem em que o jornalista Fernando Melo (DN/JN) seleccionou várias mulheres que estavam a dar seguimento ao negócio de família. Encontrámos várias sinergias entre nós. Debatemo-nos com alguns dos mesmos desafios que existem por sermos filhas/netas de homens que dinamizaram o sector e que criaram projectos com relevância. Reconhecemos as vantagens que isso nos traz, mas acima de tudo respeitamos a responsabilidade de sermos parte de uma continuidade. Somos caras novas em cada um dos nossos projectos, cheias de energia, temos a nossa personalidade, visão e contribuição para o sector. Em conjunto somos mais fortes e podemos cativar mais atenção dos mercados internacionais. Por isso formalizamos o grupo em 2016 e temos já alguns eventos alinhavados para 2017.

4 – Mulheres e vinho, uma história de amor sem fim?

O que o vinho tem de especial é essa questão do tempo. Como pessoas, debatemo-nos sempre contra ou a favor do tempo… Queremos que ele ande mais rápido ou mais lento. O vinho obriga-nos a respeitar o tempo das estações, o tempo da evolução. E também o tempo ideal para abrir uma garrafa, a pararmos no tempo e a aproveitarmos o momento. Mulheres e vinho é uma história sem fim porque o tempo não tem fim. Se é uma história de amor ou não… acho que sim. Porque em qualquer história de amor, há a incerteza. O vinho, tal como o amor, também tem uma incerteza maravilhosa.

5 – Aprende-se a gostar de vinho?

Aprende-se! Não que eu seja um bom exemplo… Em criança gostava mais de Vinho do Porto do que de leite. Fazia-me lembrar o doce de amoras que faziam na minha Quinta. E na verdade, nunca gostei muito de leite (risos). Como Wine Director no Six Senses Douro Valley – funções que acumulo desde a inauguração do hotel, e que hoje em dia partilho com o Sommelier Filipe Neto – cruzo-me com pessoas muito curiosas, mas que não percebem muito de vinho! É um produto que exige curiosidade e aprendizagem, por definição. Há tanto para conhecer, que o vinho está sempre a cativar-nos e a chamar-nos para nos oferecer novas sensações. Para quem está interessado em aprender a gostar, a minha recomendação passa por vinhos brancos frutados e com a temperatura baixa (10ºC – 12ºC). Os iniciantes no vinho tendencialmente não gostam da adstringência e de álcool elevado. Vinhos brancos sem madeira não têm adstringência, e ao baixar a temperatura disfarça a percepção do volume alcoólico. Depois é ir provando e percebendo o que se gosta.

6 – Para cada momento, um vinho diferente?

Sim… Nesse momento tem que se ter em consideração com quem se está, o local (se na praia, à frente da lareira ou num churrasco), e o que se vai comer (se é que se vai comer). Há poucos vinhos que se adaptam a todos os momentos. Mas não concordo que certos vinhos só tenham um momento, como é o exemplo do Champagne/Espumante em celebração, ou o Vinho do Porto / Vinho da Madeira no Natal em família. É bom romper-se com as máximas que temos dos momentos para certos vinhos. Champagne/Espumante durante a refeição pode ser uma combinação magnífica, desde que tenha alguma idade, mantenha a sua frescura e as bolhas aguentem com a garrafa aberta. Vinho do Porto durante os aperitivos – um Tawny 10 Anos ou um Vinho do Porto branco bem fresco, num copo normal de vinho com as entradas (rissóis, croquetes,  foie gras…) é óptimo!

7 – É filha de um dos membros dos “Douro Boy’s” – um dos primeiros movimentos criados a partir de empresas concorrentes para impulsionar uma região vinícola. De que forma este tipo de movimentos tem fomentado a indústria vitivinícola portuguesa? 

Os Douro Boys (Quinta do Vallado, Quinta do Crasto, Niepoort, Quinta Vale D. Maria e Quinta Vale Meão) são realmente um grande exemplo de como a cooperação, a linguagem informal e descomprometida aliada a projectos de uma grande seriedade, consistência e qualidade, podem atrair valor a um sector. Através de várias provas, masterclasses, formações, jantares, entrevistas e eventos no estrangeiro, em combinação com a organização de diversas viagens,  opinion leaders, jornalistas, sommeliersbuyers ao Douro ao longo dos últimos 14 anos, os Douro Boys posicionaram esta região no mapa. Não foram certamente os únicos a trabalhar neste sentido, mas foram os que o fizeram de uma forma mais clara, dirigida e a com mais força porque trabalharam em conjunto. Os Douro Boys aumentaram as exportações em 190% entre 2002 e 2013, e cada uma das Quintas exporta acima dos 60% dos seus vinhos. Os vinhos chegam hoje a mais de 40 países. Os Douro Boys promovem o Douro, por isso toda a região recebe reconhecimento e, consequentemente, a imagem do país também beneficia.

8 – Enquanto marketeer da Quinta Vale D. Maria and Van Zellers & Co, enquanto Wine girl  e consequentemente porta-voz dos produtos vinícolas portugueses, o que é que a motiva diariamente?

Sem pretensiosismos, nada me orgulha mais que ver que, através dos nossos vinhos da Quinta Vale D. Maria e Van Zellers & Co e do trabalho que tenho acompanhado no Douro, se tem comunicado tão bem esta região e o nosso país. A primeira viagem que fiz em trabalho foi em 2007 e Portugal infelizmente não era tão reconhecido como país produtor. Hoje em dia, Portugal e os nossos vinhos, ganham cada vez mais identidade nos países que visito. É uma identidade valorizada. Se continuarmos a fazer este trabalho de forma consistente e com qualidade, vamos atrair a confiança de quem “consome Portugal”, o que ajudará a criarmos mais confiança em nós próprios. E motiva-me, sem dúvida, saber que podemos ser dos países produtores de maior referência no mundo e que isso pode ser um vantagem não só para o sector dos vinhos, como para outras indústrias.

9 – Que mensagem gostaria de deixar a todas as mulheres que desejam vingar nessa área?

É uma vida de algum sacrifício – sacrificamos tempo, sozinhas, tempo com a família, as amigas, nas compras, na rotina de ginásio e de casa, com os filhos (que não tenho ainda)… Mas colhemos uma recompensa imensa. Mesmo que seja, “só”, o de bebermos um grande vinho!