Pai.

Pai.

Pai.

Dar-te a mão. 

Não minto: às vezes não queria. Apetecia-me correr e atravessar a estrada sozinha, sentir-me crescida, fintar a rebeldia e ver nos teus olhos um misto de nervos e orgulho por te aperceberes que já era capaz. O Mia Couto disse, “todo o bom pai enfrenta a mesma tentação: guardar para si os filhos, fora do mundo, longe do tempo”. 

O teu medo, agora sei, não eram as passadeiras. Não era o meu ainda pouco jeito para correr – o teu medo era eu querer largar-te. O teu medo era o que mundo tinha para me dar, quando eu já não precisasse de ajuda para atravessar qualquer estrada. Porque é isso, não é? É não sabermos viver sem a mão um do outro. É ser pai e filha. Dependentes. 

São demasiadas coisas para te dizer e não vou deixar tudo para este dia. É só mais um, nas nossas vidas, em que te dedico o meu amor inteiro. 

Obrigada por me teres deixado seguir. Obrigada por me teres deixado fazer frente ao mundo, sempre de olhos postos, não fosse o diabo tecê-las. Ter-te no amparo dá-me sentido aos dias. 

Por tudo aquilo que me ensinaste, pelas asas que me construíste, ponho um bocadinho de ti em tudo o que faço. 

Aos Pais deste mundo – não se assustem quando os vossos filhos vos quiserem largar a mão. Não vos vão virar costas; vão só ali e já voltam, pelo próprio pé, mostrar-vos o bom trabalho que vocês fizeram.