“Escrever é físico, está ligado ao coração” | Entrevista a Zaim Kamal

“Escrever é físico, está ligado ao coração” | Entrevista a Zaim Kamal

A minha última passagem por Nova Iorque foi recheada de momentos e pessoas especiais. Como já falei aqui no blogue, recebi o convite exclusivo para representar Portugal no evento de apresentação da nova coleção da Montblanc “The Meisterstück Le Petit Prince”. Foi no Four Seasons Hotel New York Downtown que um desses momentos especiais aconteceu. Tive o prazer de me sentar ao lado de Zaim Kamal, o diretor criativo da Montblanc, e conversar sobre criatividade, vida, sonhos e amor. O resultado está aqui nesta entrevista em exclusivo 🙂

Espero que gostem!

ARC: Antes de mais, Zaim, é um prazer estar aqui! Confesso-lhe que ontem fiquei super espantada com tudo (além de que tenho uma ligação enorme com a Montblanc!). Consegui sentir o que é construir o sonho. Para si, ontem, também foi a realização de um sonho? Como é esse caminho desde a produção até à apresentação ao público?

ZAIM: Na Montblanc fazemos questão de fazer tudo com muita emoção. Especialmente neste caso, com a coleção do Principezinho. É muita personalidade que passa para estas peças. Quando apresentamos os nossos produtos, surge sempre a questão “o que é que as pessoas vão achar?”. Acredito, obviamente, que o resultado é bom. Mas ouvir as pessoas, ouvir dizê-las que fizemos um excelente trabalho, que está maravilhoso… Isso faz-me sorrir. Toda a paixão que depositamos no que fazemos, de alguma forma é desencadeada. Quando produzimos um novo produto, queremos que as pessoas gostem, que sintam esta paixão. Quando vês o sorriso das pessoas, é incrível. E ontem foi maravilhoso.

ARC: Foi de facto especial! Zaim, disse numa entrevista que vê o futuro com “muita alma” e fiz de imediato a ligação com a história do Principezinho. É daí que vem? Esta mudança que o mundo precisa: precisamos de estar mais perto e mais ligados aquilo que compram. É daí que vem esta coleção?

ZAIM: Sabe, tenho uma visão muito simples da vida: sem amor, não somos nada. E é sobre isto de que é feita a coleção. Livros como este incentivam-nos a ver as coisas de outra perspectiva. Viajamos de um lado para o outro em poucas horas. Tudo é fácil. Faz-nos falta parar, dar um passo atrás, e perguntar: “porque estou a fazer isto?”. E basta acordar de manhã e olhar para o céu azul. Isso faz-nos reavaliar. Repensar as ligações – não só com as pessoas. Com os sentimentos, com o trabalho. Se pararmos de olhar para a vida desta forma, ela perde a razão. Quisemos, com esta coleção, fazer pensar. Dar às pessoas um lembrete. Porque escrever é sentir; é tacto. Está ligado ao coração. Fiz este teste em Milão, numa apresentação: Todos os anos havia um elemento do júri que levantava a mão e perguntava “Zaim, falas de escrita. Tenho aqui todos os recursos, tenho um telemóvel e novas tecnologias, porque preciso dessa caneta?”. E eu desafiei-o: peguei no meu caderno, na minha caneta e disse-lhe: “Pense em alguém e escreva ‘eu amo-te’. Como prefere ler essas palavras? Escrever com essa caneta ou com qualquer outro material? Escolheu escrever com a caneta. Porquê? Porque se sente. É físico. Antigamente, quando se escreviam cartas de amor, deitava-se perfume no papel. É sobre isto que falamos: o ato de tocar, de sentir. Usar a imaginação, a amizade, as energias.

ARC: De facto sentimos isso nesta caneta tão especial! Que tem gravada a frase “Tu és único”. O Zaim quis algo gravado, quis dar esse sentimento de conexão ao produto… É difícil transpor esse lado inspirador para um material como este?

ZAIM: É como domesticar uma fera. E foi a primeira vez que usámos a cor azul, que é o universo. Lembra-nos de onde vem o Principezinho: o ambiente, o espaço. Não quisemos ir ao livro e replicar tudo para a caneta. Quisemos criar algo especial, que causasse surpresa nas pessoas, que as desafiasse. É aí que tentamos inspirar: dar a quem usa esta caneta algo especial.

ARC: Maravilhoso. E conseguiram mesmo! Esta caneta terá 3 momentos. Agora a Raposa, depois Aviador e por último o Universo…

ZAIM: A raposa é essencial na história. Traz-nos a ideia de criar ligações, de viagem, de proteção. É isso que este livro tem de especial. As mensagens que traz.

ARC: Quer falar-nos sobre os restantes detalhes? Porque é a continuação da história importantíssima da Montblanc. A importância da tecnologia… Acha que haverá sempre espaço nas pessoas para um “luxo emocional”?

ZAIM: Enquanto formos humanos, sim. Quando olhamos para trás… Os nossos antepassados… A ideia da primeira pessoa que quis registar numa parede aquilo que viu. Marcar: sentimentos, pensamentos. Escrever não é diferente de marcar. A única coisa que mudou hoje é que se adicionou várias maneiras de escrever. E o exercício hoje é balançar estes vários métodos.

ARC: O que tem a dizer, principalmente aos portugueses, que desde sempre viveram o romantismo tão intensamente, os poemas de amor – com tantas influências como Fernando Pessoa, – e que tanto sentem desta forma especial?

ZAIM: Continuem. Não parem. Não há que ter medo. Isto é a vida, aproveitem. Cimas, baixos. Aceitação. Há coisas que podem mudar, que podem ser difíceis. Mas temos que vir ao de cima e sorrir. No meu último dia aqui, recuso-me a ser negativo. O amor é o entendimento do que somos, porque somos, porque fazemos o que fazemos. Sejam felizes.

Esta coleção está disponível nas lojas Montblanc do nosso país.